quinta-feira, 13 de junho de 2019

Me nina


Menina rara
Se sente rasa
Nas profundezas que desconhece.
Ela para pra olhar pra dentro
Quando o miolo está esmagado.
Ela só queria que a casca dura de fora fosse dentro.
Ninguém percebeu que a cara fechada
É um reflexo involuntário
Das estações que foram frias.
Ninguém vê quando ela para sozinha dentro do quarto
Tentando enterrar os pensamentos.
Que fria, essa menina!
Ela quer uma lareira.
Menina cinza
Quer unicórnios
Quando o real é o arco-íris.
Ela anda de um jeito parado
Pra sentir o vento que traz no frescor
O cheiro da primavera que não vem.
Ela é uma flor.
Coitada da flor que não vê a primavera!
Menina pele
Ouviu histórias
Que os castelos trazem encantos
E que finais são sempre planos
Que ela não planejou.
Vai um abraço menina? Te falta.
Por que você sente tanto?
Parece um pedaço de carne viva
Que acabou de ser ferida;
Ninguém pode tocar.
Menina órfã
Perdeu os pais, perdeu os pais, todos os pais.
Pais até da estabilidade.
Pais da vontade de cantar.
Pais do que é vívido.
Pais das lágrimas boas.
Pais do sorriso mole.
Todos os pais.
Menina
Me nina
Me ninar

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domingo, 19 de maio de 2019

Céu oceano


Pés na areia morna misturada com a espuma que as ondas do mar traziam a cada meio minuto e olhos fixos no imenso azul palco das histórias das sereias que encantam os marinheiros. Bia compunha um cenário de boas memórias enquanto sentia o vento de maresia levando os cabelos a grudarem no rosto a fazendo tentar tirar a parte que a impedia de continuar fitando seus olhos naquela preciosidade da natureza criada por Deus. “O mar é lindo!” pensou. Tinha certeza que poderia passar horas ali; era só puxar uma cadeira, um guarda-sol, se lambuzar de protetor solar, que não sentiria o tempo passar apenas a ouvir o som do mar e ver toda a sua dança.
Não sabia nadar; já havia se arriscado algumas vezes, mas a única coisa que fazia bem era boiar, e isto teria que ser em mar calmo, pois o agitado a afundaria. Deu alguns passos para frente deixando a água chegar acima dos joelhos. A água estava morninha, ideal. Deu um rápido mergulho para molhar os cabelos e quando voltou, não sentia mais o chão. Fez alguns movimentos para ver se o encontrava, mas nada. Sabia agora, que em instantes, se não o achasse, iria se afogar. Tudo aconteceu em segundos mas pareceu uma eternidade na cabeça dela. Se alguém olhasse na direção em que ela estava, veria os braços de alguém tentando voltar para a superfície, mas ninguém estava olhando. “Vou morrer e ninguém vai ver!” aterrorizou-lhe o pensamento. Alguns segundos depois, estava de fato se afogando e quando sentiu vir a começar desfalecer, sentiu algo lhe tocar a mão enquanto ela afundava sendo levada pela correnteza. O corpo parecia afundar rapidamente até que mais uma vez sentiu algo tocar na sua mão, mas desta vez o toque perdurou e sentiu como se alguém a estivesse puxando; não sabia ao certo para onde, pois os seus sentidos diziam que estava indo para o fundo. Quando finalmente parou, abriu os olhos ainda estando embaixo d’água e se viu cercada de imensos corais e criaturas marinhas. Neste instante percebeu que não estava mais se afogando e podia até jurar que conseguia respirar ali embaixo. “Será que eu morri e o céu é o oceano?” Pensou. Lá embaixo parecia de fato ser o céu marinho. Jamais havia visto em qualquer documentário ou aula de ciências algo parecido. As mais diversas criaturas das mais diversas cores compunham uma vista linda e curiosa. Se viu cercada por um cardume de pequenos peixinhos dourados e tentou até tocar em um deles que saiu nadando para longe dela.
- Que lugar é esse? De fato, eu morri.
Mais uma vez sentiu algo tocar sua mão, mas desta vez dirigiu seus olhos para ver do que se tratava e pasma ficou ao perceber que era outra mão ao segurar a sua. Guiou os olhos para o resto do corpo ao qual aquela mão pertencia e ao ver de que criatura se tratava, deu um grito que gerou enormes bolhas de água agitadas em torno da sua cabeça. A criatura se tratava de uma sereia muito parecida com as quais estava habituada a ouvir falar nos contos. Tinha uma enorme cauda de peixe com escamas que brilhavam em diversas cores que eram afetadas pela luz; brânquias na região do pescoço para poder respirar em baixo d’água; um cabelo quase que transparente parecia se misturar com as moléculas de água e um rosto quase humano com exceção dos olhos que pareciam olhos de tubarão. A sereia sorriu e em seguida a arrastou para um outro lugar. Sentiu que estava indo rápido demais, mas não podia parar, pois a criatura estava sob o controle. Alguns minutos depois de ter percorrido longas distâncias, sentiu uma agitação profunda chegar e percebeu que estava sendo levada na direção de um grande redemoinho. Não deu nem tempo de pensar, já estava dentro dele, girando e girando até que perdeu a consciência.
- Está com pulsação! Tragam uma toalha!
Ouviu gritos distantes quando começou a abrir lentamente os olhos. Sentiu a luz do sol penetrar pelas retinas e ao sentir-se mais consciente, percebeu que alguém com um colete vermelho e laranja estava olhando fixamente para ela dizendo palavras de reanimação e estímulo.
- Está tudo bem moça! Você vai ficar bem! Consegue me ouvir? Está sentindo algo? Você se afogou, mas conseguimos resgatar você a tempo.
Ela virou o rosto para aquela imensidão azul e pensou que talvez tivesse de fato morrido e que o céu seria como o fundo do mar. Lembrou de como era bonito e por um instante, olhando para ondas que quebravam em direção da areia, jurou ter visto o reflexo de uma cauda de escamas coloridas desaparecendo nas espumas das ondas.

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sábado, 20 de abril de 2019

O Lenhador e a Fada

Dia nublado, prevendo uma tempestade e um homem robusto, vestido de roupas sujas de um longo trabalho cortando lenha, estava a fazer o seu trabalho para um senhor que já não o podia fazer. Era de todo rústico, mas de formas extremante agradáveis e atraentes. Era o lenhador mais lindo e cobiçado pelas moças que habitavam naquela cidade. Já havia iludido algumas delas. Outras, o pediam para que fizesse o mesmo com elas, desesperadas por ter um pedaço daquela carne que a elas levava aos delírios. Ele até que era mesmo um homem lindo da cabeça aos pés, mas por dentro, vários desacertos. Nunca ligara para o amor, pois acreditava que o amor enfraquecia o homem e por isso, se esbanjava em apenas viver pelas aventuras que despedaçavam corações. 
Cansado e observado por olhos que acompanhavam o seu suor escorrendo e percorrendo por partes do corpo, sentiu um leve desconforto quando deu uma machadada no pedaço de madeira à sua frente. Sentou para um breve descanso enquanto ouvia os risos secretos que vinham de detrás de um grande tronco há alguns metros de distancia. Já estava acostumado com tudo isso e por isso não fez nada além de esperar o fôlego voltar com mais vigor. Enquanto as forças voltavam, sentiu um pingo bater em se braço. Olhou para cima, e outro pingo vinha em direção ao seu rosto. A chuva sinalizava a chegada. Logo, começaram a cair as gotas de chuva de maneira mais intensa e aí ele se levantou, pegou seu machado e seguiu em direção à floresta para voltar à sua casa. A chuva piorou muito durante os primeiro passos e resolveu pegar um atalho que achava já ter usado alguma vez durante seus 37 anos de vida. Logo, estava perdido. Não reconhecia o espaço e por isso, seguiu em qualquer direção que o seu instinto o levara. Mal sabia o que seu instinto havia preparado para ele. Foi quando a chuva se intensificou, mais do que ele achou que seria possível, que viu de longe, há poucos passos de distância, uma grande árvore; uma das maiores que havia visto em toda sua vida; e percebeu que poderia se amparar nela enquanto aquela tempestade não passava. Se acolheu nela, e encostado em seu grandioso tronco olhava para cima contemplando a beleza da grandeza que envolviam aquela majestosa árvore. Foi quando algo curioso aconteceu. Pareceu ouvir algo vindo de dentro do grande tronco que estava encostado. Encostou o ouvido para ver se ouvia mais claramente e de repente, sentiu algo como que um portal se abrir no grande tronco e ele caiu dentro dele. Estava agora, dentro daquela grande árvore. Quando levantou, percebeu que estava num lugar muito maior do que esperava que aquela árvore poderia conter dentro de si. Não havia tempestade, mas um lindo e brilhante sol que parecia dançar ao som de uma sinfonia feita por passarinhos e por flores. E havia muitas flores! Elas pareciam bailar com o vento que as conduziam para lá e para cá e todos juntos, as flores, os passarinhos e as outras criaturas ali presentes, pareciam fazer uma grande corte para um ser que ele ainda não havia percebido estar no meio de todos. O lenhador estava extasiado, piscando os olhos para ver se acordaria daquele sonho, mas ele não acordou, pois não era um sonho. Olhando todas aquelas criaturas bailando alegremente, percebeu uma criatura diferente no meio de todos. Ela estava vestida de um longo vestido que parecia ser feito folhas. Tinha um cabelo vermelho cobre que se estendia em várias tranças até os joelhos e um buquê de flores no topo da cabeça de onde desciam joaninhas que caminhavam pelos seus braços e as vezes paravam para conversar com aquela criatura belíssima que olhava para elas com bastante intimidade. Ela dançava alegremente, balançando o quadril, as pernas, os braços e ombros e em dado momento, algo ainda mais surpreendente apareceu. Dela surgiram asas que levavam ela para cima e para baixo no ritmo da canção tocada. Era definitivamente, uma fada. O lenhador não conseguiu sentir o chão abaixo de seus pés. Parecia que na medida que ela voava dançando alegre e graciosamente, ele também achou que pudesse estar no ar. Mas, era só uma sensação diante da tamanha estranheza daquele momento. Ele estava tão perplexo diante de tudo, que esqueceu que segurava um pesado machado em sua mão e o soltou ao solo, que caiu provocando um grande barulho. Todos pararam a música e a dança e olharam atentamente para a direção de onde ouviram o estrondo provocado pela queda do machado no solo. Quando viram que havia um homem ali parado a observá-los, começaram a entrar em estado de histeria. Corriam para lá e para cá, gritando ou emitindo sons que deixava claro que para eles, ter um homem ali era algo assustador. A fada nada fazia, além de estar parada olhando atenta para o homem. Diante do desespero das criaturas, ela fez um sinal com as mãos que fez com que toda a agitação parasse. Proferiu algumas palavras para eles que voltaram a fazer a festa, enquanto a linda fada, vinha caminhando na direção do lenhador. Ele estava maravilhado, pois jamais havia visto um ser tão lindo. Já havia se encontrado com muitas mulheres em seu caminho, mas nenhuma delas o teria feito ficar gélido e paralisado diante de tanta graciosidade e de tanto apreço que agora sentia.
- Como você chegou até aqui? Perguntou a linda fada.
Ele estava mudo; não conseguiu dizer uma só palavra ou fazer qualquer expressão senão a de surpresa. Ela pensou que ele não a entendia e para entender com quem estava lidando, se aproximou tão perto que pode sentir sua respiração acelerada e ofegante. Logo, começou a cheirá-lo iniciando pelo rosto e seguindo pelo pescoço e tronco. Os olhos dele seguiam na direção em que ela ia, até que sentiu uma pontada na barriga. Ela, com o indicador, tocava em algumas partes do seu corpo para ver se a textura era familiar. Por fim, ela se ergueu mais uma vez, frente a frente do ser estranho que não conhecia, e fitou seus olhos verdes e brilhantes nos olhos escuros do lenhador. Parecia ler a alma dele. Ficou assim por alguns instantes, até que fez uma expressão de tristeza, como se houvesse encontrado algo lá dentro. Algo difícil de entender, e mais que difícil, algo não tão belo quanto a forma física daquele homem. Levou sua mão ao rosto do lenhador e disse:
- Eu entendo porque está aqui. A grande Árvore nunca deixa ninguém que não pertence a esse lugar, entrar. É preciso ter um desespero profundo no coração para que alguém seja convidado.
- Grande Árvore...? Isso! Eu estava encostado numa grande árvore quando de repente vim parar aqui nesse... hã... o que exatamente é esse lugar? E por que estou aqui? Eu não sinto que meu coração esteja desesperado.
Ela sorriu graciosamente, afinal, aquele homem estava falando com ela, e isso era interessante demais para ela.
- Esse é o lugar onde a natureza nasce. É o berço dos rios, lagos, das flores, animais, de tudo o que vive, seja no ar, na terra, no mar... só não é o berço dos homens. Esses não podem entrar aqui... não podiam, até hoje.
A voz da fada era como o sussurro do vento misturado ao som de águas calmas que faziam o coração do lenhador bater aceleradamente na medida em que sentia um abraço na alma. Sentiu-se seduzido por ela e por um impulso tentou arrancar um beijo dela que se esquivou em desespero como se estivesse fugindo de uma flecha prestes a atravessar seu peito. Com suas asas batendo e o corpo suspenso no ar, ela olhou com terror para ele e disse:
- Criatura alguma ousou juntar os seus lábios com os meus! Isso seria uma maldição para mim!
- Desculpe... eu... eu só queria um beijo seu.
- No dia em que alguém me beijar, eu perco minhas asas e com elas se vai a magia que me permite levar flores para os jardins.
- Então você não pode...
- Amar?
- Não era bem isso que ia dizer, mas...
- Eu não acredito mais nisso. Acreditar, poderia me salvar, mas eu não posso mais crer no amor. Eu apenas amo minhas flores.
Parecia que agora, diante de todas as diferenças que o cercavam, eles tinham algo em comum, e a Grande Árvore sabia bem disso.
- Acreditar poderia te salvar? O que isso quer dizer?
- Nenhuma criatura poderá me beijar sem que eu perca as minhas asas, mas no dia que eu encontrar o amor e partir de mim o beijo, eu não perco minha magia. Mas seria um risco para mim fazer isso, pois se eu não tiver a certeza de que há amor verdadeiro, eu perco tudo se fizer a escolha errada. Como eu não sei como ter certeza, eu prefiro não acreditar que isso seja possível. De qualquer forma, você está aqui por alguma razão... Deixe-me mostrar tudo.
Ela pegou-o em sua mão e o levou voando para todas as direções, todos os cantos encantados daquele lugar. Lhe mostrou lá de cima as criaturas bailando na grande festa que acontecia lá embaixo, tudo impresso com cores, brilhos e muita alegria. Por um instante, aquele robusto lenhador sorriu timidamente. Ela aterrissou no meio das criaturas e voltou a dançar como fazia antes, mas agora com o lenhador ao seu lado. Ele estava tão encantado por ela, pelo som dos seus passos e o brilho nos olhos; pelas risadas soltas a cada dancinha engraçada que outra criatura fazia, que passou a se sentir atormentado por isso. Seria difícil demais viver ali ao lado dela; ele que estava acostumado a viver com tantas mulheres o cercando e tendo-as a qualquer hora e momento. Essa criatura era diferente. Ele a queria, mas não podia tê-la e seria um tormento ter que lidar com isso. Decidiu então, não ficar. Partiu com o coração partido, mas acreditava que era o certo a se fazer e que o melhor era continuar não acreditando no amor. Voltar para aquela vida vazia que antes nem o incomodava por já ter se tornado algo crônico. Mas pobre lenhador! Sua vida teria mudado desde um dia em que tinha entrado naquela grande árvore. Passou seus dias como um louco que não conseguia mais viver e por essa razão, decidiu voltar. Tentou por vários meses, mas não conseguia. Todos os dias saía de casa em direção a Grande Árvore e ficava por horas encostado nela a espera de poder retornar para a fada, mas sem sucesso retornava para casa.
Um dia ele não voltou. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido com aquele homem. Alguns diziam que tinha ficado louco e se perdido na floresta; outros que tinha fugido, e os mais trágicos diziam que tinha morrido, mas foi no dia do seu desaparecimento, que os jardins de todos ficaram repletos de flores douradas. As mais lindas flores que alguém já poderia ter visto. Ninguém entendeu e nem se quer pensou que aquelas flores poderiam estar contando a história da redenção de duas criaturas que não acreditavam no amor.
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