domingo, 1 de setembro de 2019

Cortar, verbo que muda

Cabelos ondulados, longos, fáceis de serem levados pelo vento. Deles saíam um brilho refletindo beleza; exalavam um perfume que acariciava as narinas quando se inspirava. Qualquer movimento e qualquer coisa que ela fizesse com eles a fazia parecer uma deusa. Ela tinha uma presilha em forma de libélula que prendia parte do fios em cima da orelha direita. Era tão bonita.
Por uma série de desventuras, ela estava triste. São aqueles momentos que não se adiam, nem se pode fazer muito pra mudar o infortúnio. Com uma senhora habilidosa e uma tesoura, cortou os cabelos. Tão curtos quanto os cabelos da Winona Ryder em "Outono em Nova York". Cortou-os como qualquer mulher que corta os cabelos quando quer mudar. Não essencialmente a si, mas a tudo. Porque talvez, quando certas coisas por um momento se mostram imutáveis; cortar os cabelos traz a sensação de poder mudar as coisas. 
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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Me nina


Menina rara
Se sente rasa
Nas profundezas que desconhece.
Ela para pra olhar pra dentro
Quando o miolo está esmagado.
Ela só queria que a casca dura de fora fosse dentro.
Ninguém percebeu que a cara fechada
É um reflexo involuntário
Das estações que foram frias.
Ninguém vê quando ela para sozinha dentro do quarto
Tentando enterrar os pensamentos.
Que fria, essa menina!
Ela quer uma lareira.
Menina cinza
Quer unicórnios
Quando o real é o arco-íris.
Ela anda de um jeito parado
Pra sentir o vento que traz no frescor
O cheiro da primavera que não vem.
Ela é uma flor.
Coitada da flor que não vê a primavera!
Menina pele
Ouviu histórias
Que os castelos trazem encantos
E que finais são sempre planos
Que ela não planejou.
Vai um abraço menina? Te falta.
Por que você sente tanto?
Parece um pedaço de carne viva
Que acabou de ser ferida;
Ninguém pode tocar.
Menina órfã
Perdeu os pais, perdeu os pais, todos os pais.
Pais até da estabilidade.
Pais da vontade de cantar.
Pais do que é vívido.
Pais das lágrimas boas.
Pais do sorriso mole.
Todos os pais.
Menina
Me nina
Me ninar

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domingo, 19 de maio de 2019

Céu oceano


Pés na areia morna misturada com a espuma que as ondas do mar traziam a cada meio minuto e olhos fixos no imenso azul palco das histórias das sereias que encantam os marinheiros. Bia compunha um cenário de boas memórias enquanto sentia o vento de maresia levando os cabelos a grudarem no rosto a fazendo tentar tirar a parte que a impedia de continuar fitando seus olhos naquela preciosidade da natureza criada por Deus. “O mar é lindo!” pensou. Tinha certeza que poderia passar horas ali; era só puxar uma cadeira, um guarda-sol, se lambuzar de protetor solar, que não sentiria o tempo passar apenas a ouvir o som do mar e ver toda a sua dança.
Não sabia nadar; já havia se arriscado algumas vezes, mas a única coisa que fazia bem era boiar, e isto teria que ser em mar calmo, pois o agitado a afundaria. Deu alguns passos para frente deixando a água chegar acima dos joelhos. A água estava morninha, ideal. Deu um rápido mergulho para molhar os cabelos e quando voltou, não sentia mais o chão. Fez alguns movimentos para ver se o encontrava, mas nada. Sabia agora, que em instantes, se não o achasse, iria se afogar. Tudo aconteceu em segundos mas pareceu uma eternidade na cabeça dela. Se alguém olhasse na direção em que ela estava, veria os braços de alguém tentando voltar para a superfície, mas ninguém estava olhando. “Vou morrer e ninguém vai ver!” aterrorizou-lhe o pensamento. Alguns segundos depois, estava de fato se afogando e quando sentiu vir a começar desfalecer, sentiu algo lhe tocar a mão enquanto ela afundava sendo levada pela correnteza. O corpo parecia afundar rapidamente até que mais uma vez sentiu algo tocar na sua mão, mas desta vez o toque perdurou e sentiu como se alguém a estivesse puxando; não sabia ao certo para onde, pois os seus sentidos diziam que estava indo para o fundo. Quando finalmente parou, abriu os olhos ainda estando embaixo d’água e se viu cercada de imensos corais e criaturas marinhas. Neste instante percebeu que não estava mais se afogando e podia até jurar que conseguia respirar ali embaixo. “Será que eu morri e o céu é o oceano?” Pensou. Lá embaixo parecia de fato ser o céu marinho. Jamais havia visto em qualquer documentário ou aula de ciências algo parecido. As mais diversas criaturas das mais diversas cores compunham uma vista linda e curiosa. Se viu cercada por um cardume de pequenos peixinhos dourados e tentou até tocar em um deles que saiu nadando para longe dela.
- Que lugar é esse? De fato, eu morri.
Mais uma vez sentiu algo tocar sua mão, mas desta vez dirigiu seus olhos para ver do que se tratava e pasma ficou ao perceber que era outra mão ao segurar a sua. Guiou os olhos para o resto do corpo ao qual aquela mão pertencia e ao ver de que criatura se tratava, deu um grito que gerou enormes bolhas de água agitadas em torno da sua cabeça. A criatura se tratava de uma sereia muito parecida com as quais estava habituada a ouvir falar nos contos. Tinha uma enorme cauda de peixe com escamas que brilhavam em diversas cores que eram afetadas pela luz; brânquias na região do pescoço para poder respirar em baixo d’água; um cabelo quase que transparente parecia se misturar com as moléculas de água e um rosto quase humano com exceção dos olhos que pareciam olhos de tubarão. A sereia sorriu e em seguida a arrastou para um outro lugar. Sentiu que estava indo rápido demais, mas não podia parar, pois a criatura estava sob o controle. Alguns minutos depois de ter percorrido longas distâncias, sentiu uma agitação profunda chegar e percebeu que estava sendo levada na direção de um grande redemoinho. Não deu nem tempo de pensar, já estava dentro dele, girando e girando até que perdeu a consciência.
- Está com pulsação! Tragam uma toalha!
Ouviu gritos distantes quando começou a abrir lentamente os olhos. Sentiu a luz do sol penetrar pelas retinas e ao sentir-se mais consciente, percebeu que alguém com um colete vermelho e laranja estava olhando fixamente para ela dizendo palavras de reanimação e estímulo.
- Está tudo bem moça! Você vai ficar bem! Consegue me ouvir? Está sentindo algo? Você se afogou, mas conseguimos resgatar você a tempo.
Ela virou o rosto para aquela imensidão azul e pensou que talvez tivesse de fato morrido e que o céu seria como o fundo do mar. Lembrou de como era bonito e por um instante, olhando para ondas que quebravam em direção da areia, jurou ter visto o reflexo de uma cauda de escamas coloridas desaparecendo nas espumas das ondas.

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