quarta-feira, setembro 01, 2010

Garrafas vazias



O senhor atendia aos fregueses. Seu sorriso amarelo dava boas vindas á todos. As mãos fracas seguravam um pano que servia para limpar as mesas sujas de cerveja.
Ali era sua vida se dizendo no lugar que para ele era onde tudo dependia dele. Os balcões, as geladeiras, as mesas... Foi assim que o vi.
Eu, um garoto tão jovem via meus olhos presos àquele senhor de cabelos brancos. Eu não sabia o que me prendia a ficar fitado em tudo o que fazia, só sei que algo nele me deixava curioso.
Ás mulheres ele se portava como um pai. Puxava as cadeiras e forrava a mesa. As crianças que haviam na rua passavam no bar sempre ao meio dia. Eram uma cinco e ele as alimentava. Eu do outro lado da rua via tudo. Sempre ás oito da manhã o via chegando para abrir o bar. Nunca deixava de fazê-lo. Era a sua razão e não tinha nada que o fizesse deixar aquilo. As garrafas vazias eram a parte do lucro de uma dia. Ficavam guardadas num lugar longe de tudo até serem levadas dali.
O senhor era um homem bondoso. Estava ali desde a sua mocidade. Eu o olhava sem imaginar que um dia teve alguém. A mulher que tinha seu retrato cravado na parede do bar. Ela era a dama senhora que o fazia feliz, ou que um dia o fez assim. Talvez aquele bar lhe não só era importante pelos lucros que tinha no fim do dia, mas porque lhe guardava as lembranças dos tempos onde ela estava ao seu lado.
Eu estava para fazer um projeto de ciências o qual tinha a necessidade de certos materiais. Olhei pela janela, vi o bar, o senhor e as garrafas. Pensei: "Tais garrafas podem me servir!" Desci as escadas e segui atravessando a rua me dirigindo ao bar e ao senhor. Seria a primeira vez que estaria frente a frente a ele. Meu coração disparava na ansiedade de ouvir a sua voz. Parei e ele virou para mim; sorriu com seu sorriso amarelo. Parecia cansado; seus olhos me passavam palavras de uma história forte. A sua história. Ele continuou a olhar para mim na espera de ouvir minhas palavras, mas eu continuava calado, olhando em seus olhos. Não sei o que aconteceu comigo, só sei que naquele momento só queria olhar pra ele. Havia esquecido o propósito de estar ali. Suas mãos cansadas aos poucos foram se levantando e pousaram sobre a minha cabeça; ainda num sorriso fraco disse:
"- Alguma coisa meu filho?" Sua voz era baixa e rouca; mas bastou para me despertar.
"- Sempre vejo essas garrafas vazias jogadas no canto, gostaria de saber se o senhor me daria algumas delas? Elas me ajudariam no meu projeto de ciências." Disse eu. Ele olhou para onde estavam as garrafas e retornou os olhos para mim dizendo:
"- Claro! Leve as que quiser! São garrafas vazia e de nada servem para mim."
Eu sorri e andei em direção de onde estavam aquelas garrafas; peguei algumas e agradeci. Ele sorriu. Saí andando em direção a minha casa e quando estava do outro lado da rua olhei para o senhor e ele ainda estava sorrindo e me olhando. Entrei, subi as escadas e guardei as garrafas pensando em como me sentia em relação áquele senhor.
Todos os dias arranjei um motivo para atravessar aquela rua e cada dia que passava eu o conhecia mais. Entrei em suas histórias e aprendi com seus segredos. Assim como a mulher do quadro era o seu motivo, aquele senhor era pra mim o motivo de estar naquele bar.
Chegou um dia e ele não o abriu. O bar estava fechado e isso era algo que me incomodou por dentro. Fiquei o dia inteiro sobre a janela a observar. Queria ver se o senhor chegava, mas não chegou. O senhor havia morrido.
Era esse o motivo pelo qual o bar não havia sido aberto. O tal senhor, aquele a quem me afeiçoava em grande amizade havia deixado o bar com o quadro da linda dama senhora. Ele havia me deixado. Me senti como um pássaro assustado. Ele não viria mais abrir o bar e eu não teria mais motivos para atravessar aquela rua. Eu chorei. Minha mãe me colocou na cama para me fazer dormir e me desfazer do pesadelo que agora caía sobre a minha cabeça. Eu dormi e sonhei. Sonhei com o dia em que atravessei aquela rua; com as garrafas vazias que o senhor havia me dado. No fundo vi o senhor no balcão olhando pra mim e sorrindo com o seu sorriso amarelo. Parecia jovem e os seus olhos estavam mais fortes. Ao seu lado vi uma bela mulher. Era ela. Aquela dama senhora do quadro. Ele estava com ela e feliz. Acordei e guardei as garrafas. Não iria mais usá-las. Só iria deixá-las num canto. Assim, sempre que as olhasse me lembraria do senhor e do seu sorriso amarelo.
Agora não eram mais garrafas vazias, estavam cheias de lembranças. Lembranças do senhor, do bar e de todos os que eram recebidos com o seu sorriso amarelo.

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