Outros

Nudez

00:47

Me encontro sem muitos espaços completos no guarda roupa. Muitas coisas já não cabem em mim, outras são coloridas demais. Aprendi a gostar do preto e a gostar das flores estampadas no preto. Algumas das roupas mais lindas que eu vesti, estão velhas, não encaixam mais tão bem ou simplesmente mudei pra elas. Mudei os sentidos, as direções, as ideias e até o que eu achei que não mudaria, mudou. Olhei pra trás e vi alguém tão diferente de mim, mesmo sendo esse alguém, eu mesma. Ontem eu me deitei assim e hoje acordei de outro jeito. Me desconstruí e não gostei de tentar juntar os antigos pedaços, pois quando tentei encaixar de volta, não serviu. Preciso de novos pedaços de mim e esses eu tô achando pelo caminho. Eu fico pensando se é difícil crescer ou se eu sou sensível demais. Mais difícil é quando você se pega naquele delicado e minucioso estado, onde você está lavando a pele, trocando as roupas e reconhecendo seu novo nome, um novo eu. Atualizado, em melhor estado ou até mesmo em uma atualização que deu errado, se é que isso é possível. E quando o tempo passa, você novamente se vê trocando tudo de novo; remendando uns pedaços e rasgando algumas partes que não fazem mais sentido algum. Em toda essa transição, só há uma certeza; a nudez. O momento em que o corpo fica nu, esperando as novas vestes. E talvez, essa seja a parte que mais doa em toda essa mudança, pois o corpo fica vulnerável, sensível ao frio que arrepia a pele e ao calor que a faz suar. Na nudez se enxerga o corpo. Faz parte de crescer reconhecer as suas cicatrizes, as suas formas; as antigas e as novas e saber amá-las. Na nudez se aprende a se amar, a se reconectar e a entender quais são as melhores roupas a se vestir hoje. Descobri que me encontro na minha nudez.

Contos

Invencível

01:38

- Compreendo que você está querendo acabar com tudo, mas eu te amo...
- Não dá mais... Fala ela, trêmula, sem conseguir olhar nos olhos dele.
- Você é tudo pra mim Maria! Vamos recomeçar! Toma! Te trouxe flores...
- Por favor Eduardo, acabou! 
Nesse momento, ele para olhando fixamente para ela que segura uma explosão de choro dentro de si e fica parada no mesmo lugar, sem muita reação; como um bicho acuado que tem medo de se mover. Ele chora. Respira fundo mais um vez e diz:
- Você não pode acabar comigo assim... Não te fiz nada! Nada! Você nem me merece e eu estou aqui!
Ela fica muda, como se uma voz dentro de si a dissesse "Não fala nada!". Não olha pra ele, como se o coração dissesse que iria explodir se ela o fizesse.
- OLHA PRA MIM MARIA! EU TÔ FALANDO COM VOCÊ! 
- Por favor, Eduardo...
- Maria, eu te juro, as coisas vão ficar melhores... Nós podemos ser felizes juntos! Confia em mim!?
Nesse momento, ele toca o rosto dela com um carinho afetuoso, como quem quer afagar a dor e fazer curar o que está ferido. Os ombros dela dão um leve pulo enquanto a cabeça dela quase entra pra dentro do corpo e ela tenta se esquivar enquanto ele a abraça segurando-a fortemente em seu peito.
- Não vamos mais brigar... Fala ele baixinho.
- Você vai ser muito feliz comigo, você vai ver... Você só precisa colaborar mais, né?
- Como assim, Eduardo? 
- Ué, você sempre cria um novo problema e você me provoca! Se você fizer mais o que eu digo, a gente não vai mais brigar. Vem cá! Vamos pra casa, vamos? Ele pega na mão dela e começa a caminhar a levando em direção ao carro que está parado na próxima rua. Enquanto caminham, ela pensa, mas antes de pensar, ela sente. Ela sente um dor, uma agonia; sente que as entranhas estão sendo corroídas pelo ácido mais forte que já inventaram. Aquela vontade explosiva de chorar dobra o tamanho e dessa vez ela produz dentro de si uma grande força pra conter as lágrimas que borbulham nas pálpebras. Em seguida pensou, lembrou. Viu várias palavras enviadas como tesouras cortando as suas roupas porque elas não eram ideais; as frases de silêncio que ela fazia quando ela ouvia um "Cala a boca!" e um "Você não consegue viver sem mim, porque tudo o que você tem sou eu que te dou e você não é nada sozinha... Ninguém vai te querer como eu." Sentiu uma dor no olho esquerdo e lembrou do primeiro soco. Do segundo, do terceiro; de todos. Olhou para o braço que tinha a mão dele na dela e viu uma figura roxa. Outra figura roxa na perna esquerda e outra figura mais rocha na altura do estômago. Essa ela não podia ver, mas podia sentir e sentia muito porque era recente. Lembrou de todas as flores dos dias seguintes, e de todas as palavras carinhosas junto com um pedido de desculpas que vinham acompanhados de palavras acusativas, num tom disfarçado, encoberto e maquiado com rosas. Em toda a sua história nunca tinha se sentido tão pequena, tão suja, imoral, e imprestável. Sentiu que não podia lidar com isso, que não tinha forças. E que talvez ele tivesse razão. 
Mas, subitamente ela parou. Soltou as mãos dele e disse olhando nos seus olhos:
- Acabou Eduardo! 
- Como é que...
- ACABOU! Agora eu respondo por mim e você vai responder pelos seus atos!
Ela seguiu sozinha, tremendo, achando que ia a qualquer momento desabar no chão. Tinha medo, estava apavorada, enquanto ele falava, falava e falava ao seu pé do ouvido. Ela continuava andando como se não estivesse sendo seguida por aquele som angustiante da voz dele, mas seguia firme. Pelo menos era o que aparentava. Foi seguindo enquanto aos poucos não se ouvia mais o som de nada e logo, estava sentada, na frente de uma mulher fardada com um distintivo no peito. Contou histórias. Histórias reais de uma dor que ela sentia e que a fazia se sentir um lixo. Agora, ela se sentia invencível.

Contos

Enquanto há fôlego

15:51

Sentindo um frio na garganta, fruto do ar gelado que passa quando ela respira engolindo o fôlego; ela pensa que não tem mais jeito pra ela e que o fim está próximo de se apoderar dos seus anseios e dos segredos intimamente secretos, que brotam lindos desejos e outros nem tão lindos assim. "Já é tarde pra mim!" pensou. "Será tarde?". Ela refuta os próprios pensamentos. Criou um pouco de coragem, abriu um vinho, pôs numa taça e deu o primeiro gole. Enquanto o sabor alcoólico descia goela abaixo como se estivesse regando o corpo por dentro e aquecendo a alma fria, ela pensa mais uma vez. Mas, dessa vez pensa em risadas desdentadas, pensa em olhos, em crianças correndo pela casa, pensa em poeiras benignas e em beijos perdidos. Sofreu um pouco por pensar demais. No segundo gole, abriu os olhos para se ver. Foi na frente do espelho e viu um corpo. 
- Já te odiei tanto... Disse olhando para o figura esguia que aparecia. Lembrou de dias que nem conseguia se enxergar. Não tinha coragem de olhar para as suas marcas sem sentir pena, raiva e angústia. Agora, as olhava com pelo menos indiferença. Talvez fosse um pouco de amor próprio. 
Voltou para onde estava outrora, com a taça na mão deu um profundo suspiro. No terceiro gole, começou  cantar baixinho um música que ela acabara de criar. Respirando o ar gelado do inverno, de repente deu-lhe um estalo na mente e seguido de um quarto gole pensou: "Enquanto há fôlego, não é tarde!" Colocou a taça quase sem vinho na mesa, vestiu uma roupa que a fazia se sentir bem e saiu. Saiu pra viver.

Versos

Linda do cabelo de maçã

20:40

Linda do cabelo de maçã, cheiro de sorriso e avelã; ela tem sinais e ela tem uns vendavais no coração.
Quando ela passa devagar, deixa um cheiro de brisa no ar; quando ela fala, um trovão ecoa como um cantar. E se chorar, rega as flores que ela acabou de plantar. Olha pra o céu, vê que nele tem estrelas pra contar. E se cair, pensa que o que  a derrubou a impediu. Olha pra o mar, vê que os peixes sobrevivem nas ondas.
Linda do cabelo de maçã.

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