Em Contos Diálogos Narrativa

O céu que se observa

Vagando o olhar no céu, ela sonhava. Sonhos são a especialidade da sua alma. Tentava contar as estrelas e na sexta se perdia sem saber se tinha contado a mesma duas ou três vezes. Enquanto olhava para aquele vasto céu escuro com seus astros sedutores, não percebeu que no banco onde estava sentada, alguém estava sentando ao seu lado, enquanto abria rapidamente uma mochila para tirar algo de dentro. Ela ouviu um barulho e olhou para a direção de onde vinha. Viu um homem sentado com as pernas cruzadas, com um pequeno caderno no colo, segurando uma caneta que escrevia algo numa folha que já tinha tido alguns rabiscos. "Que dedos longos e finos!" Pensou, enquanto olhava a mão do escritor. Não, quis continuar sua atenção nele, nem no que ele estava fazendo e voltou os olhos novamente para o céu. Ouviu um sussurro, cochicho, ou barulho de alguém que falava baixinho e percebeu que vinha da pessoa ao lado. Inclinou a cabeça para olhar e via a boca daquele escritor balbuciar algumas palavras que ela não conseguia entender. "Que louco!" Pensou, enquanto se movia virando devagarinho para a direção oposta daquele homem. Voltou ao céu. A cabeça se encheu de pensamentos que a  fazia descobrir um mundo dentro de si que ela nem sabia que existia. Enquanto pensava, percebeu que não ouvia mais sussurros, até que de repente, ouviu uma voz alta e firme:
- O jardim que eu sou! Disse o homem como se fosse o próprio Archimedes dizendo "Eureka!"
- O quê? Ela respondeu.
- Ah, não! Desculpa! Não foi com você! Estava falando sozinho e...
- Ah, tá... Disse ela com estranhamento, enquanto pensava que agora o achava mais louco ainda.
- É apenas um título! Exclamou o escritor tentando parecer o mais natural.
- Um título? Interessante...
- É... Sou escritor e estava pensando em alguns títulos para um texto, mas, estava difícil de encontrar um que fizesse sentido, sabe?
- As vezes, escrevo também. Mas é raro... eu prefiro observar as coisas. Disse isso voltando seus olhos mais uma vez para o céu.
Um silêncio soava, enquanto ela permanecia fazendo o que gostava de fazer. Ele, olhando para ela, acabou erguendo os olhos na direção que ela olhava.
- Daria para escrever algo sobre esse céu. Disse ele, rompendo o silêncio.
- Não tenho dúvidas! Disse ela, imóvel.
Ele acabou que como que por um encanto, permanecia olhando para cima. Uma ou duas vezes, fitou seus olhos por alguns segundos nos olhos dela, negros, que leves, ternos e pensativos, olhavam persistentemente para aquela tela negra e seus astros. Talvez, estivesse ele se questionando se estaria ali, diante de uma grande observadora ou apenas estivesse preso nos seus olhos escuros e curiosos. Mas, sendo a primeira opção e ele sendo um escritor; queria saber e queria saber dela:
- Imagine que o céu fosse uma folha de papel e as estrelas fosses letras. O que será que estaria escrito?
Ela virou os olhos para baixo, com um ar reflexivo. Era nítido que estava surpresa com a pergunta, mas estava mesmo era intrigada. Uns segundos de silêncio permaneceram enquanto ele aguardava curioso pela reposta.
- É difícil saber... disse ela. Seria algo para todos, afinal, todos quando olham para cima vêem o mesmo céu e...
De repente, ela abriu olhos com maior intensidade, inclinando os ombros como se tivesse encontrado uma reposta.
- E o que? O que o céu teria a dizer para todos? Disse ele curioso.
- É ousado dizer... E como disse, não sou uma boa escritora, mas observadora. Quando eu olho para o céu, sou chamada à fazer isso. Observar. Talvez, isso seja o maior recado que ele tem pra dar. Daí em diante, é singular.
Nesse momento, os dois voltaram seus olhos para cima, refletindo no que acabaram de conversar. Talvez, cada um lendo palavras e frases escritas, que trazem uma mensagem singular de um mesmo céu, ou apenas estavam só sentindo, sendo energizados pelas luzes que piscavam lá de cima.
Seria bonito dizer que uma estrela passou rasgando um pedacinho dessa parte do universo, mas não. Apenas o mesmo quadro, pontilhado de luzes numa escuridão.


14 comentários:

  1. Que texto lindo, palavras tão intensas. Incrível como o mesmo lugar, momento e o mesmo céu podem ser observados e sentidos de maneiras diferentes mesmo sendo o mesmo, mesmo sendo um só!

    www.kailagarcia.com

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    1. Oi Kaila! Obrigada pelo comentário e pela visita! Beijos!

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  2. Observar é a dádiva que devemos sempre praticar, pois as vezes achamos que estamos observando, mas no fim nem lembramos de nada, não estávamos nem olhando. Lindo texto.

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Verdade, Monique! Os olhos são as janelas da alma, não é mesmo? Obrigada pela vista! Beijos1

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  3. Belo texto. Me senti envolvido pela história do início ao fim. Existem coisas que merecem ser apenas observadas.
    Boa semana!

    Jovem Jornalista
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    Até mais, Emerson Garcia

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    1. Obrigada! Que bom que gostou! Obrigada pela visita! Até mais! :)

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  4. Belo conto!!
    Fiquei pensando aqui e acho que "observar" é realmente o maior significado que o céu pode nos dar, observar não somente o céu, mas as pessoas, os detalhes, os momentos...
    Bonito! ♥

    https://heyimwiththeband.blogspot.com/

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    1. Eu adoro observar. Principalmente a natureza que tem muitos mistérios e lições para ensinar. Obrigada pela visita! Beijos!!

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  5. So beautifully written. Great job!

    www.fashionradi.com

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  6. Oi Hozana, tudo bem?
    Adorei o texto, muito bonito e reflexivo.
    Como alguém que ama o céu, curti muito ler. :)
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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    1. Oi, Priscila! Tudo bem, sim!
      Muito obrigada! Também amo o céu ❤
      Beijos!

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  7. Que dupla fascinante Hozana, gostei demais do texto. O céu estrelado, o escritor, a observadora... que combinação interessante!

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    1. Obrigada, Camila! Que bom que você gostou! Beijos!!!

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